terça-feira, 17 de outubro de 2017

O desafio da Aceitação

Atualmente com a popularização de alguns conceitos budistas e de outras filosofias orientais, você provavelmente já ouviu falar em aceitação. Mas será que compreendemos de fato esse conceito? E será que estamos prontos para colocá-lo em prática?

Aceitação é algo que realmente pode transformar a sua vida e o seu Ser.


Porém a nossa cultura ocidental não valoriza esse ato, muito pelo contrário, o desvaloriza porque não compreende e incentiva o seu oposto: Idealizações e Expectativas.

Na era da "ansiedadeXdepressão" não há nada mais importante para olharmos, pensarmos e analisarmos dentro de nós mesmos. Afinal, ansiedade é nada mais do que a mente presa no futuro, isto é, gerando e alimentando expectativas; Enquanto a depressão é a mente presa no passado, isto é, apegada a idealizações que não se concretizaram e geraram frustrações as quais não sabemos lidar.

Nossa mente está o tempo todo oscilando entre esses dois polos, passado e futuro, dois momentos imaginários que de fato, não existem, nunca existiram e nunca irão existir. Sim nós temos memórias, lembranças e planejamentos, mas tudo isso está apenas em nossa mente. O momento presente é tudo o que existe. Aprender a viver o momento presente da forma como ele se apresenta é se libertar desse looping de expectativas ansiosas e idealizações frustradas, é sair da gangorra emocional em que tantos de nós vivemos oscilando entre a ansiedade e a depressão.



A aceitação é a chave dessa transformação.

Você aceita quem você é? Você aceita quem os outros são? Seu parceiro ou parceira? Seus pais e familiares? Ou você idealizou em sua mente pessoas que não existem e passa a vida se lamentando por sua família, parceiros, etc. não serem da forma que você idealizou?
Você aceita as circunstâncias conforme surgem em sua vida? Ou idealizou também situações e passa a vida se lamentando que elas não correspondem às suas expectativas?

Quando que você começará a viver de fato a sua vida, com todas as maravilhas e terrores, ao invés de ficar esperando uma situação inexistente, fantasiada, criada por suas expectativas e idealizações? Quando que você começará a viver de verdade? Ser você mesmo de verdade? E não mais uma máscara criada para atender as expectativas e idealizações do outro?


A nossa sociedade impõe modelos. Jung abordou amplamente o conceito de Arquétipos, que são padrões que trazemos de forma inerente em nosso inconsciente. Se estivermos conscientes desses padrões eles podem nos ajudar a compreender a nós mesmos e aos outros, mas se eles estiverem inconscientes, podem se transformar em complexos afetivos que não sabemos como controlar. 

O Arquétipo da mãe por exemplo, carrega consigo todo um peso de uma idealização de toda a história da humanidade, em torno dessa figura que deveria ser sempre amável, compassiva, pura e acolhedora. Porém a mãe humana é apenas uma mulher, como qualquer outra, com seus defeitos e qualidades. E isso vale para tantos outros "papéis arquetípicos", como pai, filho, esposa, marido, companheiros...O quanto nós carregamos de forma inconsciente essa idealização, impossível de ser correspondida? O quanto cobramos isso, de nós mesmos e do outro? E o quanto essa cobrança, interna e externa, nos faz cair nesse redemoinho de idealizações e frustrações, destruindo auto estima e relações...


A saída desse furacão é simples, porém exige algo com o qual não estamos acostumados a lidar: Desapego. Desapegar de conceitos, de "achismos", de certezas, de imagens...Desapegar do olhar do outro e, mais do que isso, desapegar da sua própria forma de olhar. 

Olhar pro mundo e para o outro como se fosse a primeira vez: De forma aberta e livre
Livre de conceitos, de suposições, de julgamentos, de idealizações...Livre do "deveria ser assim" ou "mas se fosse daquele jeito"...Nada disso existe. Existe apenas o que é. E a partir do momento que você aceita o que é, da forma que é,  seu mundo se transforma.

Aceitar não é passividade. Aceitar é primeiro passo para transformar tudo o que você deseja transformar. Aceitar o outro é Amar o outro. Aceitar a si mesmo é Amar a si mesmo. Quando você se ama da forma que você é, você compreende que todas as pessoas e circunstâncias da sua vida contribuíram para formar esse Ser maravilhoso que você é hoje e por isso você é imensamente grato. E quando você aceita também os seus "defeitos" (a sua Sombra), você pode olhar pra ela, e transformá-la.



Esse é o maior ato de entrega possível. É abrir mão da (falsa) sensação de controle e realmente abraçar a vida. A sua vida. Ela é apenas sua, com todas as maravilhas e terrores. Única. Assim como você. 
Aceite. 
E só depois de aceitar, ame o que for de amar, e transforme o que for de transformar. 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Equinócio de Primavera - O momento de Florescer

Equinócio é o momento exato que marca o início da primavera ou do outono, assim como o solstício é o momento que marca o início do inverno ou do verão. Nossos ancestrais tinham rituais específicos para comemorar cada um desses momentos, pois percebiam a importância da mudança das estações e a conexão entre o planeta Terra, o Universo e todos nós, seres que o habitam.

Atualmente os seres humanos, principalmente no ocidente, se distanciaram totalmente de suas raízes, ignorando o fato de que fazemos parte de um corpo maior, e tudo que ocorre nesse corpo nos influencia diretamente.

"Floresça de dentro"

Abandonamos também os rituais, que são de extrema importância simbólica para a nossa psique. Os rituais trazem elementos que acessam diretamente o nosso inconsciente, pois trazem símbolos carregados de significados milenares, e o nosso inconsciente por se comunicar de maneira simbólica, é extremamente afetado pelos ritos, fazendo com que se processem movimentos em nossa psique, sem precisarmos de um esforço consciente para promovê-los.

Faço então um convite, para retomarmos essa prática tão importante, nesse momento do equinócio de primavera, que é exatamente o momento de florescer!

Nessa sexta, dia 22, é o Equinócio de Primavera, o sol estará cruzando o equador celeste fazendo com que o dia e a noite tenham a mesma duração. A Primavera é o começo de um novo ciclo, que representa o "nascimento". É o período de regar nossos jardins e plantar sementes para o nosso processo de renascimento. Durante o equinócio de Primavera - quando a força do dia e da noite tornam-se iguais - devemos nos integrar conscientemente à "Mãe Terra" que todo ano renova seu ciclo de nascimento e ressurreição, muito favorável a novos inícios.


Na primavera, a primeira manifestação de energia vital é o nascer e brotar da vegetação. Trata-se de um momento de prosperidade e crescimento. De acordo com antigas tribos indígenas, a primavera é a estação do despertar. É quando enxergamos através da ilusão, ou quando descobrimos novas informações, trazendo clareza para o caos ou confusão.

Desse modo, recomeçamos rompendo velhos padrões, renovamos nossa intenção, propósitos e nos preparamos para um novo ciclo, que traz o equilíbrio entre o masculino e o feminino em nossas energias.



Nesta estação, saímos da introspecção do inverno e passamos a florescer e a despertar em nossas vidas. É a chegada da energia que nos faz abrir novas fontes de criatividade, nos tornar mais otimistas, observadores e determinados.

Sugestão de ritual:
Em uma superfície coloque à leste (lugar onde nasce o sol) um vaso com flores. Ao norte (área de maior luminosidade no hemisfério sul) ponha uma vela. Ao oeste (poente) deposite um punhado de terra ou folhas secas retiradas do chão e ao sul, ponha um cálice com água. Quando o seu altar estiver pronto, volte-se para o leste e pronuncie a seguinte Invocação:

“Agradeço à Vida por tudo o que Ela me proporciona e peço que meus objetivos ....(fale ou pense seus desejos), estando eles alinhados com o Propósito do meu Ser, possam dar frutos no tempo certo. Que eu saiba reconhecer a minha verdadeira natureza e permitir que ela floresça."

Faça esse ritual todos os dias na mesma hora, por 7 dias, ou pelo tempo que seu coração pedir.
Vamos resgatar dentro de nós o poder de se conectar com o movimento natural do universo.



Fonte: www.personare.com.br e terraderuda.org,br 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Liberdade


Liberdade é ser quem você é.
Mas para ser é preciso antes saber.
Quem é você?
O que você quer expressar no mundo?
Qual a sua vontade?
O que te move?
O que pulsa dentro de você?
Se não nos conhecermos profundamente e tivermos a certeza de quem somos, com todas as nossas nuances de luzes e sombras, ficaremos confusos, perdidos em meio a uma sociedade que tenta nos empurrar modelos e padrões pela goela abaixo.
Para lutar "contra" a generalização é preciso ter a convicção de que estamos expressando a nossa verdade, de forma clara e genuína.
Não é ser rígido, mas é se conhecer a ponto de saber o que faz sentido pra você. Saber quem e quando ouvir, e sempre saber quando é necessário transformar.
Estamos sempre nos modificando, mas nunca nos afastando da nossa natureza essencial.
Conhecer a sua natureza é ser livre das imposições externas e ter mais força para expressar a sua verdade.
Autoconhecimento é liberdade.



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Deméter e o poder da Nutrição

A deusa Deméter é uma deusa da Mitologia Grega relacionada à terra, às colheitas, à fertilidade, à prosperidade e nutrição. É o arquétipo da "Grande Mãe", também associado ao aspecto maternal e cuidador do feminino. Ela que ativa em cada um de nós o poder da nutrição, tanto a auto-nutrição quanto a nutrição do outro. O seu aspecto sombrio seria a falta, ou melhor, a ilusão da falta, os pensamentos e sentimentos que nos levam a acreditar na falta, mesmo vivendo em um universo tão abundante.



No mito, Deméter teve sua filha Perséfone raptada pelo deus do mundo dos mortos Hades, que queria casar com perséfone a qualquer custo. Deméter disse a Zeus que nada iria florescer, que a terra iria se tornar infértil, até que sua filha voltasse. Houveram negociações entre Hades, Zeus e Demeter e ficou decidido que Perséfone passaria um tempo com a mãe e um tempo com Hades, no submundo. E assim o mito diz que o outono e o inverno são os períodos onde a Perséfone está no submundo e Deméter está sentindo sua falta.

Assim Deméter experimentando a dor da falta, fez com que todos experimentassem essa mesma dor tornando a terra infértil e impedindo a plantação e colheita dos alimentos. O que nutria Deméter era o amor da filha, quando ela perdeu sua nutrição negou a nutrição que ela proporcionava ao mundo.

Esse mito abre caminho para inúmeras análises psicológicas de diversos padrões de comportamento humano, porém hoje vamos focar apenas no tema da nutrição. Deméter ao entrar em contato com o sentimento de falta, usou o seu poder e projetou essa falta no mundo. Todos nós temos uma Deméter dentro da gente e todos nós temos o poder de nos nutrir ou de nos desnutrir, isto é, todos nós temos em nossas mãos o poder de atrair abundância ou de projetar a falta.

Deméter e Perséfone

Deméter projetou a falta no mundo, porque sentiu primeiro essa falta internamente, com o distanciamento da filha. O amor da filha era o que nutria Deméter.
E você, o que te nutre? 
O que te faz sentir pleno e satisfeito? 
O que acessa em você o sentimento de falta, caso não se faça presente?

Essas são perguntas poderosas e ao serem respondidas e compreendidas, podem desbloquear algumas crenças limitantes que nos atrapalham a atrair a abundância em nossas vidas. A ilusão da falta é uma forma de crença limitante que pode nos atrapalhar muito.

Estamos em um universo abundante e a vida de qualquer ser humano é feita de momentos, de altos e baixos, de ciclos, assim como a natureza tem suas pausas e seu momento de germinar. Precisamos aprender a lidar com todos os momentos, e compreender que tudo o que necessitamos para viver já existe no universo, só é preciso atrair. Acreditar que não temos o que precisamos é focar na falta e consequentemente, atrair falta. Se mudarmos o nosso olhar para o que já temos, com gratidão e alegria, nosso foco estará na prosperidade e assim prosperidade vamos atrair.

Quando nossa mente está focada na falta ficamos impossibilitados de ver inclusive o que já temos. Ficamos na sombra da Deméter, que é a ganância e a insatisfação eterna. Existe uma fábula árabe que conta a história de um servo de um rei que foi avisado que iria receber de presente, por ter agradado o rei, uma sacola com 100 moedas de ouro. Muito eufórico e já comemorando com sua família, o servo foi pra sua casa e viu em cima de sua mesa o saco de moedas. Começou a contar as moedas alegremente e percebeu que só haviam 99. Começou a procurar a centésima moeda, achando que havia perdido, deixado cair... e não achava. Enlouquecido procurou por toda a casa, afinal uma moeda de ouro já valia muito, era mais do que ele ganhava por meses de trabalho, ele não poderia se dar ao luxo de perder, ele pensava. Procurou, procurou, procurou, por dias, meses e talvez anos...nunca se conformou com a moeda de ouro supostamente perdida, e as outras 99 moedas que estavam no saco, nunca lhe trouxeram alegria.


Isso é a ilusão da falta...e se pararmos pra pensar, vamos ver que nós fazemos o mesmo que esse servo em muitos momentos de nossas vidas, quando esquecemos do que já temos, não aproveitamos, não nos alegramos, não agradecemos por tudo o que temos e apenas ficamos enlouquecidos à procura do que ainda nos falta.

Deméter fala de nutrição, nutrir a si mesmo, em primeiro lugar, para depois poder expandir essa nutrição ao outro. Nutrição não é só alimentação, mas sim tudo o que te faz sentir pleno, tudo o que te alimenta de forma simbólica. Amor, prazer, natureza, beleza, vida...Você é capaz de se nutrir sem precisar de nada, nem de ninguém: um banho de mar, um mergulho numa cachoeira, um banho mais demorado, um cuidado consigo mesmo, uma comida que você cozinha só pra você, um livro que te faz bem...infinitas possibilidades!

Descubra o que te nutre e se alimente mais disso! Mude o seu olhar do que você ainda não tem para tudo o que você já conquistou! Tire o foco do que você precisa fazer ou alcançar e faça uma lista de todas as coisas maravilhosas que estão presentes na sua vida, nesse momento.
A forma como vemos a nossa realidade, transforma a nossa vida.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Crenças Limitadoras - A suposta lei do esforço e recompensa

São tantas as crenças limitantes que nossa sociedade nos impõe, e que passam a impregnar a nossa mente desde os primeiros pensamentos conscientes, que seria impossível enumerar todas elas. Isso sem falar do que está inconsciente, esse"lixo" todo de supostas verdades que absorvemos e que influencia a nossa vida o tempo todo.

Começo então lembrando a todos que não existe uma verdade absoluta. A verdade é algo subjetivo e extremamente pessoal. Sim existem fatos, mas até eles são subjetivos, porque serão absorvidos e interpretados por cada pessoa de uma forma diferente, e ao tentar reproduzi-lo em palavras, você já estará colocando nele a sua própria interpretação.



Essa ideia de verdade nos limita muito. Acreditar que algo é imutável é igual desistir. 
E isso é o que na psicologia chamamos de crenças limitadoras, são verdades que introjetamos como imutáveis, absorvemos devido à experiências, observação ou mesmo por ouvir muito aquilo. Passamos a acreditar que a suposta verdade é um fato imutável e nossa vida, nossas ações, passam a ser limitadas por conta disso.

Dizer que os pensamentos tem poder, que atraímos o que pensamos, não é algo mágico ou místico. Afinal, você concorda que nossos pensamentos determinam nossas ações, certo?
Antes de ter uma ação, por mais impulsiva que esta ação seja, você pensou em algo antes de agir, mesmo que por poucos segundos. E a nossa vida é um somatório de nossas ações e das consequências delas, certo? Logo nossos pensamentos direcionam e determinam como será a nossa vida.



Todos nós somos bombardeados com uma quantidade absurda de ideias, positivas ou negativas, todo o tempo. O que nos faz filtrar essas ideias é a forma como nossa mente está acostumada a pensar, são os nossos "padrões de pensamentos". Alguns padrões são muito antigos e inconscientes, por isso muito difíceis de serem modificados, que é o caso das crenças limitadoras. Normalmente são supostas verdades enraizadas como certezas em nossa mente. O primeiro passo para transforma-las é observar, reconhecer que ela existe e começar a questionar.

Se pergunte: "Porque eu repito essa frase mentalmente há tantos anos?", "Porque eu acredito nisso?", "Isso é realmente verdade?", "Acontece com 100% dos seres humanos?". Com certeza não, pois nada acontece com 100% dos seres humanos, e já por aí você pode começar a desconstruir essa crença, seja ela qual for.

Como eu disse são tantas as crenças limitadoras que seria impossível falar de todas elas, uma que eu trago hoje para refletirmos é uma crença muito comum em nossa cultura e sociedade ocidental, a crença do esforço, a suposta verdade de que esforço gera recompensa e mais do que isso, que você só terá coisas boas na sua vida através do esforço. Você já parou pra questionar essa "verdade"?

A nossa sociedade ocidental cresceu industrialmente e tecnologicamente às custas do proletariado, que desde sempre trabalha muito e ganha pouco. Dessa mentalidade mecanicista e capitalista vem a ideia de convencer a massa social de que é necessário se esforçar muito sempre, e assim haverão recompensas, sejam elas financeiras ou de um deus que irá te recompensar no reino dos céus.


Porém se você observar o universo, a natureza em si, não é assim que funciona. Na natureza existem operações muito complexas, que são realizadas sem nenhum esforço. Existe sim um movimento, mas é um movimento natural e fluído e não um esforço exagerado e cansativo. A própria vida se forma sem esforço. O processo que transforma uma célula minúscula em um ser complexo e inteligente, acontece de forma natural e fluída, sem esforço. O universo inteiro está em movimento, existem infinitos acontecimentos no universo que mal compreendemos, como buracos negros, supernovas, a física quântica, o movimento dos elétrons, extremamente complexos, e tudo isso fluí naturalmente.

E sabe como isso é possível? Porque na natureza tudo simplesmente é e não se força à ser. 
Um elefante não tenta ser rápido e ágil como um felino, assim como um felino não procura ser forte e resistente como um elefante. Desde uma célula minúscula até uma estrela gigante, tudo faz parte de um processo único e natural, que por sua vez faz parte de um processo maior, e nem a célula nem a estrela vão tentar fazer parte de processos diferentes.
Tudo está exatamente onde deveria estar de acordo com a sua própria natureza. 


Não é que seja tudo previsível, existe o caos, existe o imprevisível, mas até esses processos caóticos agem através de inter-conexões e de acordo com a natureza de seus elementos. Não existe um esforço exagerado. Tudo fluí.

A nossa mente racional pode nos ajudar muito a evoluir ou nos atrapalhar totalmente. Nós possuímos o raro dom da escolha e da criação. Mas o que vamos escolher? O que vamos criar na nossa vida, na nossa realidade? Isso depende de algo muito mais profundo que a mente racional, depende da maneira que pensamos, que compreendemos e sentimos. E essa maneira pode ser sim, transformada.

Existe um ser "por trás" dessa mente racional, que pode guiá-la. Nos aproximando da nossa verdadeira natureza, nos aproximamos do fluxo natural da vida, podemos compreender as nossas verdades, os nossos pontos de fortalecimento e onde atuamos realmente no fluxo natural do universo; assim como as células, ou as estrelas, vamos saber, sentir, que estamos onde deveríamos estar.

É exatamente o contrário de se esforçar. Se você olhar pra sua vida e perceber que está fazendo esforço demais e nada está fluindo é porque você não está sendo verdadeiro com a sua natureza. É como tentar encaixar uma peça de um quebra cabeça no lugar errado. 

Quem é você realmente? O que você realmente quer, sente, acredita? Você segue uma determinada carreira só porque sua família pressionou? Ou porque você mesmo acreditou que apenas algumas poucas carreiras podem levar ao sucesso e escolheu uma delas? Você segue um determinado estilo de vida porque acredita não ser capaz de conseguir outro? Você está num relacionamento que não está bom porque acredita que não pode ficar só? Olhe a sua volta, você está realmente feliz onde está? As suas ações fluem naturalmente?

Se permita sentir o fluxo natural da vida e , sem esforço, compreender onde você se encaixa nesse fluxo.
Só você é capaz de transformar a sua vida. Comece pelos seus pensamentos. 

sábado, 29 de julho de 2017

Um desabafo sobre suicído e a intolerância à dor

"No Japão os objetos quebrados são reparados com ouro. Aquela marca passa a ser vista como um pedaço único e valioso da história do objeto, que é adicionada à sua beleza."


Essa semana eu soube de um suicídio.
Dentre tantos suicídios (e pessoas com pensamentos suicidas) que já ouvi, na clínica ou na vida, esse foi o que mais me marcou.
Não, eu não conhecia a pessoa pessoalmente. Mas ao meu olhar (e talvez por conta das minhas próprias idealizações) era uma pessoa iluminada.

Como psicoterapeuta esse tema é algo que preciso lidar, algumas vezes. Compreendo os inúmeros distúrbios emocionais e psíquicos que muitas pessoas carregam. Fora da clínica, quando eu escuto sobre o suicídio de um cantor de banda ou um ator famoso, eu logo penso, buscando uma razão, que a vida pública deve ser difícil, que essa exigência da figura pública, da persona, pode tornar tudo meio vazio, e coisas assim...Mas e o suicido de um "mestre"?

Ele não se intitulava mestre espiritual até onde eu sei, mas era. Ministrava ensinamentos sobre meditação, budismo, yoga, no mundo inteiro. Também era Psicoterapeuta e dava ensinamentos sobre Jung, juntando o olhar da psicologia analítica com as práticas orientais, assim como eu. Eu acompanhava as palestras dele online, escutava seus áudios, via seus vídeos, e me inspirava.
Assim como ele me inspirou deve ter inspirado milhares de pessoas com o seu trabalho. Casado e pai de dois filhos. Se matou.

Uma inquietação imensa nasceu dentro de mim...
Não é fácil lidar com a ideia do suicídio. Mais difícil ainda lidar com essa ideia vinda de uma pessoa que, na minha idealização, era uma pessoa tão conectada com o sentido da vida.
E dessa inquietação surgiu um questionamento que só agora consigo colocar em palavras:
Será que estar conectado com o sentido da vida, do universo, basta diante da dor que precisamos lidar todos os dias?

É muito bonito dizer que somos pessoas alegres, leves, que meditamos e que percebemos a beleza da vida, que estamos integrados com o universo...
Mas e a sombra? Você está olhando pra ela? Mas e a sua dor? Onde ela está?

Todos temos dores profundas, cicatrizes profundas, e a nossa sociedade transforma elas em segredo.
Ninguém fala sobre elas. Você as esconde atrás de sorrisos e posts no facebook. Ou, quem sabe, atrás de meditações e uma vida espiritualizada. Criando uma nova persona, se distanciando mais ainda da sombra, da dor. Fugindo.
Tudo que fazemos sempre é fugir da dor.
Todas as compulsões desenfreadas, as ansiedades, as carências exageradas, as dependências...tudo isso são fugas da dor.

Já ouvi, em uma conversa informal, que o pensamento suicida vem de um sentimento de desconexão total, "você não se sente conectado com nada, nem consigo mesmo", a pessoa falou. A questão é que, se existe uma dor visceral em você e você foge dela por toda a vida, mas ela continua ali, pulsando lá no fundo e volta e meia vindo à tona, talvez, o inconsciente comece a anestesiar tudo, numa fuga desesperada dessa dor.

A Clarissa Pinkola, em seu livro "Mulheres que correm com os Lobos", chamou isso de "zona morta" da psique. Quando uma pessoa tem uma dor profunda da qual ela foge, o inconsciente começa a criar barreiras de proteção em volta dessa dor, anestesiando tudo à sua volta. Você vai se desconectando de coisas que possam te lembrar, ou te fazer de alguma forma entrar em contato com a dor...dependendo da proporção você pode acabar mesmo por se desconectar de tudo.

Então a única solução é parar de fugir.
A única solução é se conectar com a dor em si.
Abraça-la. Vivê-la totalmente. Até que se esgote ou que se acomode, como uma cicatriz se acomoda em nosso corpo, passando a fazer parte dele.
E isso nos torna mais fortes.
Quando você consegue passar por uma dor profunda e resistir, você se torna mais forte.
Mas passar não é negar.
Você muitas vezes pode viver momentos de dor, mas passar a vida negando eles emocionalmente.

Jung disse que a psicoterapia não é, nem nunca foi, um trabalho para ajudar as pessoas a se tornarem mais felizes, mas é sim um trabalho para ajudar as pessoas a lidar com suas dores. A conviver com elas.

Não, não vai passar. O seu passado não vai deixar de existir. As cicatrizes feitas por tudo que te marcou, não vão desaparecer. Mas ao invés de fugir delas, nessa compulsão incessante por tapar o "buraco da dor", podemos começar a aceita-las, convida-las para fazer parte do nosso ser, da nossa história, do nosso amadurecimento, não como uma vítima, mas como uma pessoa inteira, que como qualquer outra, possuí marcas.

Estamos tão compulsivos, por saídas, por bebidas, por prazeres, por "amores", por viagens, por objetos, por drogas, por palavras, por vidas alheias...por qualquer coisa que possa tapar o "buraco da dor", como se jogássemos ela no fundo de tudo e por cima todas essas coisas, pra soterrar a dor e nunca mais vê-la.
Só que ela é mais forte.
E enquanto não dermos as mãos pra ela, ela continuará sendo.

Eu ensino meditação aos meus pacientes e nos cursos que dou, porque acredito que é uma ferramenta incrível para acalmar a mente e para ajudar a entrar em contato com quem você realmente é, seu ser essencial, a fonte por trás dos pensamentos. É importante entendermos que não somos nossa mente, nossos pensamentos. Também não somos nossas emoções, mas elas fazem parte da gente. Todas as alegrias e dores fazem parte da gente. E elas podem ser uma ponte entre o ego e o self, isto é, entre todos os nossos "personagens" e quem realmente somos.

Precisamos nos curar dessa intolerância à dor.
Eu te garanto que, por maior que seja a sua dor, você não vai morrer se sentir.
Talvez, se não sentir...
Quando passamos por esses momentos de dor profunda morremos simbolicamente, uma parte de nós morre na dor, se transforma e renascemos fortalecidos como o mito da Fênix que morre e renasce das próprias cinzas.
Mas se passamos a vida negando uma energia tão forte, em algum momento ela pode nos engolir, como os dragões desenhados por tantos psicóticos e esquizofrênicos nos trabalhos de arteterapia...os dragões do fundo do mar, do inconsciente, que tanto tememos.

Olhe pro seu dragão. Lute com ele, até que vocês dois se tornem um. Se transforme no Dragão.
E jogue fora toda a crença de fragilidade emocional que foi imposta à você por uma sociedade doente, que precisa de pessoas frágeis pra se manter. 
Você é mais forte que isso.

Outra frase genial do Jung é: "Nada que faça parte de você pode ser mais forte do que você mesmo. Isso é uma ilusão"
A dor é sua. Ela é parte de você. Você inteiro é mais forte que ela.
Então pode dar as mãos a ela sem medo. Olhar nos olhos da dor e ouvir o que ela tem pra te dizer.
E sentir ela tão intensamente como você sentiu o dia mais feliz da sua vida.
Vamos quebrar essa ideia maniqueísta de que existe bem ou mal, certo ou errado, pois desde muito tempo isso só nos atrapalha.
A vida é. O universo existe com suas supernovas e seus buracos negros. 
Criação e destruição, luz e sombra: precisa-se carregar os dois dentro de si para ser inteiro.
Quando pararmos de negar a dor, e a morte (no seu sentido literal e simbólico), saberemos como lidar melhor com elas.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

As 15 melhores frases de Jung

"Parabéns pra você, nessa data querida..." rs
Hoje é aniversário do pai da Psicologia Analítica: Carl Gustav Jung.
Ele nasceu em 26 de Julho de 1875, na Suiça. E faleceu no dia 6 de Junho de 1961.
Sou suspeita pra falar, mas é impossível discordar que este homem foi realmente um sábio, que nos presenteou ampliando olhares, abrindo mentes e caminhos na estrada que leva ao si mesmo.


Em homenagem selecionei as suas melhores frases (na minha opinião).
Espero que gostem! ;) 

1. "Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro desperta."
Essa é uma das mais conhecidas, mas é tão verdadeira que é bom lembrar sempre, não?

2. "A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade."

3. "O que negas te subordina. O que aceitas te transforma."

4. "Mas existe no homem algo que seja mais forte do que ele mesmo? Não devemos esquecer que toda neurose é acompanhada por um sentimento de desmoralização. O homem perde confiança em si mesmo na proporção de sua neurose. O indivíduo sente-se derrotado por algo de 'irreal'."

5. "Eu não sou o que me acontece eu sou o que escolho me tornar."

6. "Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro."

7. "Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou empiricamente que o “padrão de Deus” existe em cada homem, e que esse padrão é a maior energia transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indivíduo. Encontre esse padrão em você mesmo e a sua vida será transformada."


9. "A questão não é atingir a perfeição, mas sim a totalidade."

10. "Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino."

11. "O principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. "

12. “Por trás do homem não se encontra nem a opinião pública nem o código moral universal, mas a individualidade da qual ele ainda não tomou consciência.” 

13. "Até onde conseguimos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão da mera existência."



E pra fechar minha favorita:

"Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos."





sábado, 15 de julho de 2017

Mandalas: A expressão da essência

Mandala é uma palavra que significa "círculo mágico" em sânscrito, e se caracteriza por figuras circulares que são usadas há milênios em algumas culturas e religiões orientais para representar atributos divinos ou formas de encantamentos/orações (mantras).
A sua antiguidade remonta pelo menos ao século VIII a.C. e são usadas como instrumentos de concentração e para atingir estados superiores de meditação (sobretudo no Tibet e no budismo japonês).

Na Psicologia Moderna, Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Analítica, ao estudar as mandalas orientais e sua utilização como instrumento de culto e de meditação, passou a desenhá-las, descobrindo o efeito de cura que elas exerciam sobre ele mesmo. Após anos de pesquisa e aprofundamento no conhecimento do psiquismo humano, ele passou a utilizar a construção de mandalas como método psicoterapêutico.

Pintura de Carl Gustav Jung no Livro Vermelho

Através de seus estudos ele percebeu que a mandala representa o nosso eu mais inconsciente, interior, a nossa essência, que ele denominou "Self". Quando desenhamos ou construímos uma mandala, estamos expressando ali uma espécie de mapa do nosso inconsciente e um caminho para reconhecermos nossa essência.

Somente o criar da Mandala já é um ato extremamente positivo para a psique de qualquer indivíduo, pois além de trabalhar a criatividade como qualquer processo artístico, ainda trabalha o simbolismo do círculo que representa a totalidade psíquica. Jung observou em trabalhos criativos de seus pacientes que, os pacientes com distúrbios psíquicos mais graves, não eram capazes de desenhar formas exatas, desenhavam riscos e imagens confusas. Conforme o tratamento ia evoluindo, começavam a desenhar formas e finalmente círculos. Os círculos representam a psique estruturada e coesa, a totalidade do ser, ou a expressão do "Self".

Além do processo de criação já ser terapêutico, ainda podemos trabalhar com a análise das mandalas, analisando o simbolismo dos elementos e principalmente das cores colocadas nos locais determinados, que representam pontos do  nosso inconsciente e do processo deste "caminhar para o encontro com si mesmo", que Jung chamou de Individuação.


A mandala já era utilizada como instrumento terapêutico, desde os tempos primitivos, pelos Xamãs indígenas da América e aborígenes da Austrália que, ainda nos tempos atuais, as gravam e desenham em areia colorida. Também, místicos ocidentais e orientais de quase todas as culturas, ao longo de toda a história da humanidade, já utilizavam mandalas como “um caminho para reencontrar seu próprio centro”.

Para Jung a mandala é a porta entre dois planos, o inconsciente (mundo interno) e as tarefas exteriores (mundo externo). Mas também é terra e homem. O homem que pode ser projetado no universo e o universo que pode ser projetado no homem. Micro e Macro cosmos, que na verdade são dois lados de uma mesma moeda. Nós somos o universo e parte dele, assim como temos parte do universo impresso dentro de nós.

Mandala Tibetana

Essa gama de simbologias que as mandalas oferecem, estão ligadas diretamente com os processos da fantasia, dos desejos, das motivações do inconsciente do indivíduo que a está criando. Toda essa representação de conteúdos internos, é fundamental para que possamos visualizar fora e de maneira mais clara, o que está acontecendo dentro de nós.

Podemos inclusive observar padrões, que nos tomam diariamente, por mecanismos de atuação condicionada e automática. Ou mesmo observar quais elementos e simbolismos fazem parte do nosso momento de desenvolvimento pessoal, e assim concluir como lidar e que caminhos seguir. Essa visualização dos processos internos, traz a possibilidade de fazer o devido manuseio diante das revelações que os simbolismos da mandala lhe revela.

Como os antigos bem definiam é "um caminho para encontrar o próprio centro". Uma ferramenta incrível que pode nos ajudar nessa contínua busca pelo auto conhecimento e transformação.

"A Mandala é uma imagem arquetípica cuja a precisão é atestada através dos anos. A imagem circular representa a totalidade, ou, colocando em termos míticos, a divindade encarnada no homem." (C.G.Jung)


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Dia 05 de agosto vou oferecer um workshop em Campos dos Goytacazes onde ensinarei a criação e análise das próprias mandalas, baseado nas técnicas da psicologia analítica e na teoria da Alquimia Junguiana. Mais informações AQUI.

domingo, 25 de junho de 2017

O tempo interno e as pausas

"Adoro as pausas entre as canções..."
Quando eu era criança eu gostava muito de uma música que tinha essa frase, e essa frase me fez começar a reparar as pausas entre as canções, e eu realmente adorava aquele momento de silêncio entre uma música e outra, me transmitia uma sensação muito boa, mas que eu não entendia muito na época.

Hoje venho pedir pra vocês refletirem profundamente sobre a importância das pausas. Você se permite dar pausas? No seu dia? Na sua vida? E as pausas internas no turbilhão dos pensamentos, sentimentos e emoções? A maioria de nós não se permite, mas...porque?


A nossa sociedade nos impõe e valoriza uma aceleração e um modo operante contínuo, sem pausa. A pausa se tornou sinônimo de preguiça, de postergar, e estamos caindo nessa armadilha sem perceber o mal que isso nos faz. Nosso corpo muitas vezes precisa adoecer, pois chegamos num limite tão grande de exaustão que ele nos obriga a parar. Acreditamos fortemente que "não temos tempo", "não da pra parar", "não posso não fazer todas as milhares de tarefas", acreditamos realmente que todas são essenciais e nos cobramos realiza-las, porém nos esquecemos do que é mais essencial: nós mesmos. 

Essa forma de viver é tão forte que já esquecemos o que são as pausas de verdade. Pausa não é ver um filme, não é ficar rolando a tela do faceboook vendo a vida dos outros, não é ler matérias online, não é ver novela, não é nem ouvir uma música ou viajar...Isso tudo ainda são estímulos que absorvemos e que precisamos digerir. Não estamos nos dando tempo de digerir nada, e quando eu falo de digestão não estou falando apenas da alimentação.
Nutrição é tudo que a gente absorve. Cuidar da sua própria nutrição é cuidar de tudo que "entra" no seu corpo, no seu ser.



Você já parou pra pensar em quanta coisa você está absorvendo por hora? Por minuto? Todos os dias? Quanta informação, quanto estímulo, quantas imagens, palavras, símbolos...todos eles acessam nosso inconsciente de alguma forma e geram emoções e sensações, muitas vezes sem que a gente perceba conscientemente. A tecnologia hoje, principalmente a internet, nos mantém mergulhados num excesso incomensurável de informações por segundo, as quais mal temos tempo de assimilar, quanto mais de digerir, porém tudo isso está "entrando" em nosso ser, tudo isso está indo de alguma forma pro nosso inconsciente, fazendo parte de você. Já parou pra pensar o quão forte isso é?

Do que estamos nos alimentando então? Será que estamos realmente escolhendo esse alimento? E estamos nos dando tempo de digeri-los? O quanto nós estamos viciados nessa aceleração e nesse excesso de estímulo, e acabamos nos dando mil desculpas pra não parar, enquanto no fundo a verdade é que nos viciamos nessas sensações? O quanto nosso ego acredita que precisamos ser assim, "antenados", "ligados no 220Volts", para sermos valorizados na sociedade, e muitas vezes, valorizados por nós mesmos?


Todo ciclo precisa de pausas, antes de um recomeço, após um encerramento, após uma grande ideia surgir e antes de realizá-la, após a realização de um projeto...
O corpo precisa de tempo pra digerir o alimento, a terra precisa de tempo pra germinar a semente plantada, estamos querendo alterar o tempo natural dos ciclos da vida, da natureza. Todos nós temos nosso tempo interno, nossos ciclos internos, o quanto estamos desrespeitando eles? As mulheres mais ainda, com seu período lunar de sangramento, de renovação, que é naturalmente um momento de introspecção, onde nos sentimos mais cansadas fisicamente, mais lentas...O quanto estamos violando o nosso corpo, a nossa natureza?


Comece a olhar para o seu tempo interno e respeitar ele, comece a sentir de forma mais consciente o seu corpo e entender as pausas que ele necessita. Mesmo que seja por 5 minutos diários desconecte-se do externo e conecte-se com o interno, com você mesmo, com seu ser. Pare, respire fundo e escute o que ele pede.
Não esqueça que não somos máquinas, logo não podemos e não devemos nos comportar como elas. Somos natureza, então volte-se para a sua, enquanto ainda dá tempo.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Meditação na Clínica

A psicanálise Freudiana afirma que é preciso fortalecer o ego para ter uma vida plena, e a clínica psicanalítica trabalha com essa ideia de fortalecimento do ego. Já o budismo e outras  filosofias orientais afirmam que é preciso abandonar o ego para ter uma existência mais significativa, para evoluir... Será que apenas um desses pensamentos estaria certo?

Atualmente existem muitos estudiosos, psicólogos e terapeutas que buscam integrar essas duas vertentes de pensamento, que parecem a princípio opostas. Porém poucos admitem, ou mesmo conhecem, o fato de que há aproximadamente um século Carl Gustav Jung já havia integrado esses dois pontos de vistas da humanidade, quando desenvolveu a sua teoria do "Processo de Individuação" e conceitos como o "Self".



A Clínica Junguiana sempre se propôs a ajudar o indivíduo a ir muito além do fortalecimento do ego, buscando um aprofundamento no âmbito do inconsciente coletivo, um "descascar" de camadas superficiais, e a integração dos opostos até a totalidade psíquica. A "busca" por essa totalidade, o entendimento do universo como um todo e a compreensão da integração de todas as "partes" existentes, também estão presentes no budismo e em outras filosofias orientais.

Para Jung nós não somos o nosso ego. Não somos formados apenas pelas nossas experiências, influências do ambiente e de pessoas "chaves" no desenvolvimento infantil como pais, familiares e professores; isso tudo forma o ego. Porém nós temos um "centro" essencial, que vem antes disso tudo, inato, que seria quem realmente somos. A este outro centro da psique Jung denominou "Self". Todo o processo de individuação se resume na tomada de consciência desse self. 



Inicialmente nós só temos consciência do ego, ele que define para nós mesmos quem somos. O Self está inconsciente. Durante o processo de individuação (que vale lembrar é um processo contínuo, infinito e não linear), começamos a integrar os conteúdos que estão no nosso inconsciente, e assim nos tornamos cada vez  mais inteiros, cada vez mais conscientes de quem realmente somos. 

Jung definiu algumas etapas desse processo, que como eu já disse, não é linear, porém podemos ver alguns pontos pelos quais todos passam, como:



  • o reconhecimento da persona, que são os papeis sociais que interpretamos e nos identificamos, que usamos como "máscaras" em nosso dia a dia; 
  • o confronto com a sombra que são os nossos conteúdos mais inconscientes, os quais negamos, não queremos admitir que temos e projetamos no outro; 
  • e a integração da ânima e do ânimus, que são as energias Yin e Yang (feminino e masculino) que existem dentro de nós. 




Todas as etapas desse processo são passos a caminho da totalidade psíquica e nos aproximam mais da nossa verdadeira natureza, pois é como se fossemos tirando camadas que nos impediam de percebe-la. Conforme vamos percebendo essa natureza essencial, ela vai se tornando mais consciente e logo mais ativa em nossa vida e dia-a-dia. Passamos a pensar e agir mais da forma que realmente somos do que da maneira antiga do ego. Porém você não deixa ter ego. Ele continua existindo, pois você precisa dele pra viver em sociedade, ele só não comanda mais totalmente a sua vida.



Logo na clínica Junguiana trabalhamos sim no fortalecimento do ego, mas para que a pessoa tenha estrutura psíquica para enfrentar todas essas etapas e desconstruir essa "falsa" identidade para encontrar quem ela realmente é.

Todo esse processo se assemelha muito a alguns textos e filosofias orientais. Principalmente as não-duais que defendem exatamente o encontro da verdadeira natureza, mas sem negar o mundo em que se vive, a realidade externa. 

Algumas práticas de meditação, como por exemplo a meditação mindfulness, propõe a atenção plena no momento presente e o "desligar" dos pensamentos, que nos traz a compreensão de que não somos a nossa mente, mas sim uma consciência "além" dela, que a observa e que pode sim, "controlá-la". Com a regularidade dessa pratica, realmente sentimos que não somos os nossos pensamentos, sentimos essa "atenção plena" essa consciência por trás da mente. Em outras palavras a proposta é a mesma do processo de individuação, um distanciar do próprio ego, para compreender que somos muito mais que ele.



Quando não nos identificamos com nossos pensamentos, os processos de "cura" se tornam muito mais acelerados. Se você observar são os nossos padrões de pensamentos, nossa forma de pensar, nossa mente, que cria as nossas patologias. Se conseguimos nos distanciar deles, observar seus padrões e começar a quebrar e/ou transformar esses padrões, podemos amenizar imensamente ou até mesmo acabar com diversas doenças da mente e do corpo. 

Se você se identifica com a sua doença ("eu sou ansiosa", "eu sou deprimida", "eu sou gorda/magra/feia/etc - e por isso tenho um distúrbio alimentar", enfim poderia dar milhares de exemplos...) o processo de cura se torna muito mais difícil, pois curar seria abandonar uma parte de si, seria "destruir" uma parte do seu ego, do que você acredita ser, sua identidade. Por pior que a doença possa ser na prática, isso gera um enorme apego inconsciente e, também de forma inconsciente, o ego se defende de tudo que quer "destruí-lo", resumindo seu inconsciente trabalha contra a cura.



Se compreendemos e sentimos que não somos apenas esse ego, que não somos esses pensamentos, que existe uma natureza do ser mais profunda e livre desses padrões, automaticamente nosso inconsciente busca essa natureza de forma muito mais contundente, pois como disse Jung, o nosso inconsciente busca naturalmente a integração, a totalidade psíquica. Por isso a meditação é tão eficaz no processo, pois com regularidade a prática traz exatamente essa sensação de "Ser": essencial, pleno e inteiro.

E combinada com a terapia, ao mesmo tempo trabalhamos no fortalecimento da pessoa para que ela consiga lidar com o processo de "abandono" do que ela acreditava ser, que é um processo possível porém bem difícil de se fazer só; e em paralelo com o reconectar-se com a sua essência, com seu self. É um caminho espiralado de confrontar, compreender, abandonar e reconhecer...Não foi à toa que Jung denominou de processo de individuação, pois é mesmo um processo, que não tem um objetivo final, é um processo de uma vida inteira. 



Porém por mais "trabalhoso" que pareça ser, é imensamente recompensador. Sentir a plenitude dentro de si, sentir que você controla a sua mente e não ela que te controla, sentir que você é capaz de se amar, de se acolher, de ser quem você é independente de outros ou de algo externo...são experiências que Jung chamou de "numinosas", pois são difíceis de explicar em palavras, é algo que contém a sensação de sagrado. 


No mês de Junho estarei apresentando uma palestra no Rio no II Congresso de Clínica Junguiana e Arteterapia: Tradições e História da Arte (Informações: clique aqui) e um workshop teórico e prático em Campos dos Goytacazes (Informações: clique aqui), ambos sobre o uso da meditação na clínica Junguiana.